Mostrando postagens com marcador familia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador familia. Mostrar todas as postagens

8 de dezembro de 2008

Sobre bebês mortos

Todo mundo me pergunta (duas pessoas) o porquê do nome Umbigo Roxo. Por que não “Blog da Marcela”, ou “Marcela Prado”? Pois bem, eu coloquei esse nome por causa dos meus avós. E não, eles não têm hérnia no umbigo.
Foi assim, eu estava indo almoçar com minha avó Natália (Natalícia na certidão) e meu avô Lázaro (Lázo para os íntimos), e ao passar por uma opção de restaurante notamos que ele estava vazio. Era um restaurante novo e com uma boa infra-estrutura, mas estava vazio. Minha avó vira para meu avô e diz: “ Esse aí já nasceu com o Umbigo Roxo”. Ele concorda: “ É, já nasceu com o umbigo roxo”. O que? Como assim “umbigo roxo”? Então eles me contaram que é uma coisa que não vai durar. Vem de quando um bebê nascia com o umbigo roxo, sinal que não iria sobreviver.

Chocados? Muito mau gosto falar de bebes mortos? Não vão mais voltar nesse blog macabro? Gente, antes do meu avô nascer, minha bisavó perdeu outros cinco filhos. Minha avó também perdeu inúmeros irmãos. Para eles isso é normal. A vida é assim. Simples. Direta. Ou é, ou não é e bola pra frente. Acho bonita a forma deles de encarar o mundo, sabe? Sem meias palavras. Fora que umbigo é tão blog, né? E um umbigo que vai acabar? Blogs estão sempre prontos para acabar. Na verdade, tudo está sempre pronto para acabar, para morrer, até quem acabou de nascer.

Por que só agora eu resolvi falar sobre isso? Porque ontem foi aniversário do meu avô e eu fiquei com vontade de contar essa história, de contar o quanto ele é importante para mim, o quanto ele me influenciou ao longo da vida e influencia até hoje.
Vem dele minha adoração por frutas e ervas. Era ele quem descascava minhas laranjas, quem colhia as amoras, quem comprava as melhores bananas-maça, que pareciam de mentira de tão pequenas e saborosas. Ele que buscava erva-doce ou erva-cidreira para nossos chás com bolinhos de chuva, e tantas outras ervas, que ele plantou no terreno fundo do prédio, que antes dele chegar era um depósito de lixo. Hoje tem babosa, tem jabuticaba, tem arruda, tem hortelã, tem taioba, tem boldo, tem chuchu, tem melissa, tem tudo. E por falar em tudo, quando eu acho que sobre ele eu já sei tudo, ele pega meu violão e tira um dó, um ré. Mas Vô, você sabe tocar violão? Sim, ele sabe. E me conta que seu pai era mestre de folia de reis, e várias outras coisas que eu não fazia a menor idéia.

27 de outubro de 2008

Sonhos de Natal - Domingo, Dezembro 30, 2007


O que falta na minha família é um alcoólatra. Chega desse bom mocismo. Natal com conversas em tom amigável, comida gostosa, presentes e cada um pra sua casa. Precisamos de alguém para rolar na mesa, derrubar o peru, fazer a criança chorar. Talvez um alcoólatra com uma esposa dramática, que grite, o pegue pelos cabelos e o arraste até a saída, sob o olhar assustado dos demais. Todos se perguntariam como ela agüenta, e as crianças, pobrezinhas? Teríamos assunto para o resto da noite e para o almoço do dia 25.
Não, sem esse papo que não sei como é triste essa doença. Realmente não sei, mas sei como são chatas as festas com pessoas sóbrias e não as desejo a ninguém. Algumas boas doses a mais são indispensáveis e meu parente alcoólatra saberia dessa lição como ninguém.
E as piadas? Seriam tão melhores. Imagine só, no lugar de piadas com preconceitos disfarçados, teríamos piadas explicitamente incorretas, com os nomes certos dos sexos no lugar dos tananãs e na frente das crianças. Sem essa de passar o dedo pela pele, fale preto, fale criolo. Fale de uma vez que você odeia pobre, odeia viado. Meu parente alcoólatra falaria, assumiria tudo de pobre que há dentro dele com a desculpa da bebida, e todos fingiriam espanto.
Talvez ele nadasse pelado. Talvez gritasse que a casa é dele, e ele faz o que quiser. As mães tapariam os olhos das filhas. Os adolescentes dariam risada e se perguntariam qual mais ele aprontaria. Joga a tia na piscina! Eu estaria no coro. Vai desfazer a chapinha! Pessoas ceiando molhadas e de cabelo bagunçado.
E você? E você que é um vagabundo? E você que deu o golpe do baú? E você que teve um caso com a secretária? Chifruda! Sovina! Você roubou o próprio pai! Sim, ofensas no lugar de doenças alheias. Terminaríamos a noite brigados para fazer as pazes no dia seguinte, ou talvez no reveillon. Não, só no próximo natal. Ou nunca mais! Mentira. Todos se perdoariam, foi a bebida, foi o parente alcoólatra, mas ele não tem culpa, é uma doença, pobrezinho.

Filha de peixe... - Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Eu já joguei minhas roupas no lixo e já joguei água sanitária no arroz. Por que? Não sei, é como se eu saísse de órbita, distraio, faço sem ver e quando vejo aquilo volto, estranho, demora alguns segundos até que eu entenda o que não encaixa nessa ação e perceba a besteira que eu fiz.
Não me orgulho muito disso, não é legal ter que começar a cozinhar o arroz todo de novo, não é legal aparecer em casa com uma caneta que você não tem idéia de onde surgiu, ou ir para faculdade com o controle remoto da tv.
Esses dias descobri que se não tem solução, tem uma explicação: é genético.

Diálogo 1 com minha mãe:
-Acredita que eu fui passar o hidratante e passei desodorante no lugar?
-Mas mãe, quando tava passando não sentiu o perfume?
-Não, só estranhei quando os olhos começaram a arder.

Diálogo 02:
-Pinga colírio pra mim?
-Mãe, tem certeza que isso é um colírio? Tá estranho, tá azul e grosso.
-Ah, peguei lá no quarto do Rodrigo (meu irmão). É colírio sim, li na bula.
-Mãe, você é louca? Não pode pingar sem receita médica, vi na tv. Aumenta a pressão interna do olho, coisa e tal. Pode até cegar!

Nesse meio tempo meu irmão chega.

-Não, não é colírio. É remédio pro ouvido.
-Você não disse que leu na bula? -
Li, mas estava sem os óculos. De qualquer funcionou, não ta ardendo mais.

23 de outubro de 2008

Quando eu era criança queria... - Quarta-feira, Setembro 29, 2004

ter oito filhos
tomar o café da manhã da Xuxa
ter um walkmachine
que os cachorros vivessem tanto como os elefantes

De todas essas opções a ultima vontade é a única que permanece. Como seria bom se eles vivessem o bastante para acompanhar toda a nossa vida, e que assim não houvessem despedidas. Meu cachorro ainda estaria aqui, eu não me sentiria culpada por não tê-lo ajudado quando ele precisou, eu ainda teria tempo de deixar que ele passeasse o quanto quisesse, por todos os jardins, sentindo todos os cheiros.Ele ainda poderia colocar o focinho para fora do vidro do carro, como se estivesse recebendo o mundo todo na cara. Eu faria sua vontade e permitiria que ele observasse mais o que tinha além do muro, do jeito que sua natureza curiosa pedia, que corresse atrás dos seus passarinhos, mas não, as coisas não são assim e isso tem me feito muito infeliz nos últimos dias.
Foi por isso também que eu não postei na última semana, por estar triste e por ter medo de ouvir alguém falando que eu devia lembrar de quem não tem casa pra morar ao invés de me preocupar com um cachorro. Eu me preocupo com as pessoas, com as crianças e coisa e tal, mas por que isso tem que fazer com que eu seja indiferente a um ser que me acompanhou durante 12 anos? Sinceramente não consigo, não quero e nunca vou entender pessoas assim.



É da idade - Terça-feira, Agosto 10, 2004


Gente, eu to em crise. Minha mãe me acha uma exagerada, diz que nem sabe como vai ser quando eu fizer 50, mas a verdade é que tem sido muito difícil pra mim. Esse mês faço 22 anos, não sou mais uma adolescente, tenho assumir uma postura adulta, mas não sinto a menor vontade de fazer isso. Queria poder continuar a tomar decisões irresponsáveis, viver de mesada, acordar tarde e não lavar nem um copo, sabe?
O problema é que quando estamos assim, em crise, fazemos coisas que os outros não entendem, como aquela dona de casa que se separa e começa a querer usar mini-saia, ou como aquele homem velho que canta todas as meninas da praça para ainda se sentir viril. Eu estou assim, tanto que uns dias para trás eu tava pensando que nunca tinha usado piercing (pelo menos por mais de três dias) e nada é mais adolescente que colocar um, então resolvi por. Surgiram vários questionamentos - mas e o emprego, mas agora, pra que isso - mas mesmo assim eu resolvi ir adiante, pois imagina o meu filho, daqui uns 15 anos, me perguntando como era usar piercing, assim como eu pergunto para minha mãe como era usar calça boca-de-sino e passar o cabelo a ferro. O que eu vou responder? Que não usei? Que coisa chata, eu odiaria a minha mãe se ela não tivesse usado boca-de-sino, e essa calça ta para a geração dela como o piercing ta para a minha. Outra coisa: melhor querer por um piercing agora, do que aos 80, como a Hebe.

-Mas e ai? Acabou a crise?
-Ah, não. Mas de qualquer forma foi engraçado ver minha avó perguntando: mas marcela, você precisava colocar esse espeto na cara?