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27 de outubro de 2008

O dia mais estranho da minha vida ( um post grande, porém verídico) - Segunda-feira, Novembro 26, 2007

Saio de casa para viajar para São Paulo. Estou atrasada como sempre, e como sempre minha mãe pergunta nervosa se eu não estou esquecendo nada, pijama, escova de dentes, cédula de identidade, e o dinheiro, pegou? Peguei. Até aqui tudo normal. Só mais uma das centenas de viagens que fiz até a capital do estado vizinho. Ou seriam milhares? Sei lá, sou péssima nesse tipo de raciocínio, mas chuto milhares.
Começo a sentir fome. Não parece uma boa idéia viajar todo esse tempo com fome. E se comprasse um lanche na padaria a dois quarteirões do ponto de ônibus? Vai sim, dá tempo. Ele ainda vai demorar pra passar, diz uma moça se enfiando na conversa. Por que eu dou ouvidos para outras pessoas? E pior, por que eu dou ouvidos para pessoas que eu nunca vi na vida? Perco ônibus. Mas tudo bem, o enroladinho de frios está ótimo.
Pego o ônibus seguinte. Abro minha latinha de suco. Faz aquele barulho gostoso. Outro barulho gostoso. A vizinha de poltrona abriu uma lata também, mas é de cerveja. A vizinha puxa algum assunto, respondo, mas respondo de forma objetivas, sem prolongar. Não é todo dia que eu quero ser sociável, sabe? Ela insiste. Eu resisto, mas lembro da boa educação que minha mãe tentou me passar e dou a batalha por vencida. Agora já sei que ela nasceu em uma fazenda, mas casou e foi morar e cidade grande, que não se adaptou, que está cansada, que é professora, que faz cursos por correspondência, e que tem uma amiga com sobrenome Rosmaninho. Que? Rosmaninho? Jesus, que coincidência! Eu também.E estou indo passar uns dias na casa dela. Engraçado, ela me disse que só existe uma família com esse nome. Estranho, muito estranho. Nesse momento começo a achar que algo acontecerá.
Pode parecer estúpido, mas eu não acredito muito em coincidências. Eu acredito em sinais. É, é idiota, eu sei. Saio do ônibus com vontade de ir ao banheiro. Pago um real contrariada, pelo menos o direito de esvaziar a bexiga deveria ser garantido ao cidadão. Não acha? Bem, eu acho. Banheiro lotado, procuro uma cabine vazia. Olho para baixo, tento olhar pelo vão inferior qual delas não tem um par de pés, ou mais, e então eu o vejo. É um pé. Só um pé, sem resto, sem corpo, no máximo a canela magra, mas basta, é assustador o suficiente. Um pé branco, veias aparecendo, unhas crescidas e amareladas, pele ressecada. Um pé de velha. Um pé feio. O pé mais feio que eu já vi na minha vida. Uma cena de filme de terror. Saio apressada e pego a escada rolante.
Passado o susto, decido comer algo, algo barato. Vou até a praça de alimentação, mas no caminho algo me chama a atenção. Parece uma bolinha. Sim, é uma bolinha, uma bolinha de gude e está vindo na minha direção. Desvio e a bolinha passa, continua rolando, rolando, passa por todo o salão e eu a perco de vista. Some no meio de pés e bagagens. Olho para os lados, para frente, para trás, tento entender de onde ela veio. Alguma criança por perto? Ma loja de brinquedos? Nada, não tinha nada. E hoje em dia as crianças nem brincam mais de bolinha de gude. Estranho? Muito estranho. E contando com o sobrenome e o pé, já são três sinais.
Vejo uma barraquinha de cachorro quente, tem um anúncio de um cachorro quente por 2 reais, e vem duas salsichas. Tudo que eu pedi a Deus.
-Moço, quero um cachorro quente.
-Qual?
-O do cartaz.
-Ah, o do cartaz?
O moço faz uma cara feia, de desapontado. Abre a portinha do balcão, sai, pega o cartaz, enrola, enrola, e enrola. Enrola de forma demorada, não sei se por cautela ou pra me irritar. Volta, guarda o cartaz, e só então começa a preparar o meu pedido.
Reconheço o atendimeto incomum como o quarto sinal e começo a pensar em desgraça próxima. Talvez um meteoro atinja a terra. Não, menos. Talvez a morte do Roberto Carlos. O jogador não, o Rei. Verdadeira comoção nacional, plantão na Globo, matérias no jornal. Paro de pensar em desgraça e lembro de pedir mostarda.
Entro no metro. Um homem falando alto chama minha atenção. Ele grita com uma mulher, quer sentar em outro banco e não no que ela escolheu. É um homem baixo, moreno, bigode, regatas, e chinelo Rider. Fazia tempo que não via um chinelo Rider. Era um homem rude, abrutalhado, jeito grosseiro de sentar, falar, de ser. A mulher obedece e senta no fundo, onde eu também estava. Não me lembro da roupa, só do cabelo e da pele. O cabelo é muito seco, mal cuidado, arrebentado, mas ela sustenta a vaidade. Tentou prender os cachos, mas de tão arrebentado os fios só conseguia prender uma pequena porção na nuca, o resto ficava armado, solto, indicando o sentido oposto do couro cabeludo. E a pele? A pele por si só é um retrato fiel da alimentação precária. Não tem cor, não tem viço, nada. Ela senta e passa seu braço pelo corpo dele, reconfortada. Acho meigo.
Ele começa a falar que não quer mais esse tipo de relacionamento, que gosta de ser homem solto, sem mulher, sem compromisso, que é melhor ela seguir o caminho dela, seriam mais felizes. E então ela murchou. Se existia ali um resto, uma porcentagem mínima de vida, foi embora neste momento. A moça tira o braço, abaixa a cabeça, e ele diz algumas palavras que deviam ser para consolo, mas são cruéis. Ela chora em silêncio. Ele levanta seu rosto, diz que não é motivo para tanto, que ela ficará bem.
E eu fico lá, assistindo tudo, pensando naquela moça, na vida que ela teve, nos motivos que a levaram a acreditar que aquele homem era seu porto seguro. Fico imaginando o local onde eles estavam vivendo, no dia a dia, ele medíocre, mas ela se sentindo ainda mais medíocre que ele, e ele bem satisfeito no papel de pessoa superior, os dois totalmente alheios as suas reais condições de desgraça, e foi então que tudo ficou claro. Foi então que entendi. Os sinais finalmente se justificam, algo único aconteceu na minha vida, a mistura da realidade e da ficção. Será que estou louca ? Pisco forte. Pisco forte duas vezes. É verdade. É ela. Estou diante da verdadeira, da autêntica Macabéia.

23 de outubro de 2008

Só na cafeína - Terça-feira, Julho 20, 2004


Eu costumava brincar que existem três tipos de pessoas que não são dignas de amizades: as que não bebem, as que não assistem novelas e as que não jogam buraco. Tem coisa mais chata do que ir em uma festa ou a um bar com alguém que não bebe? Tem coisa mais chata que chegar eufórica para contar que leu na banca de revistas que o Paco vai beijar a Preta e a pessoa perguntar quem é Paco? Tem coisa mais chata do que passar um dia de chuva junto com uma pessoa que não sabe jogar buraco?
Sim, tem. Ir na padaria ou servir lanche da tarde para uma pessoa que não bebe café, e eu não bebia café.
Varias vezes eu era convidada para tomar café da tarde de alguém e chegando lá só tinha café mesmo, nem um suquinho nem nada, só a pessoa com aquela cara de sem graça, desculpe, eu não sabia. Fora a inveja que eu sentia das pessoas que sabiam beber café, faziam aquela cara de prazer, eu ficava morrendo de vontade mas quando provava achava horrível, venenoso, não conseguia entender como alguém podia achar aquilo bom.
Depois de anos de não ao café e de ser muitas vezes excluída pelos que gostavam de bebe-lo, eu decidi mudar esse quadro, defini que nessas ferias eu tinha que aprender a beber. A primeira vez foi tão ruim como as anteriores, aquele gosto forte, aquela cor duvidosa, pensei ate em desistir, mas segui em frente. No segundo dia já achei gostosinho, e no terceiro até já senti vontade e comecei a espalhar feliz da vida para todo mundo que agora eu sou uma pessoa que bebe café.
O engraçado é que embora eu sentisse vontade aquilo ainda não estava incorporado a minha rotina, fui em uma padaria tomar lanche e pedi um suco de laranja. Ve se pode? Esqueci. Fiquei triste comigo. Será que eu nunca me tornaria uma bebedora de verdade? No outro dia já fui pensando no caminho, para chegar lá e pedir café. Chegando lá, café na cabeça, surge outro problema. Não conheço o linguajar ¿cafeines¿. Como se pede um café? Eu só estava bebendo em casa, não sabia como se fazia por ai. Um cafezinho? Um café? Uma xícara de café, com açúcar e chantilly? Fiquei com medo de que todo mundo percebesse que eu era nova nesse meio, medo de passar vergonha. Vi um cara pedindo apenas por café mesmo, sendo servido no copo com o potinho de açucar do lado, resolvi imitar e falei exatamente o que ele falou, um café por favor. Café servido, e agora? Qual a quantidade de açúcar necessária? Acabou ficando ruim, mas tudo bem, eu chego lá.